Artigo05 de junho de 2025

Para quem vai sua parte quando você abre mão da herança?

Os efeitos da renúncia à herança e como ela pode reorganizar a sucessão familiar.

Por Anne Brito · OAB/RJ · OAB/ES

Renunciar à herança é um ato jurídico sério, definitivo e cercado de consequências que muita gente descobre tarde demais. Antes de assinar qualquer documento em inventário, é essencial entender para onde vai a parte de quem abre mão.

O que é renúncia à herança

A renúncia é a declaração formal de que o herdeiro não quer receber a sua parte. Ela precisa constar de escritura pública ou de termo nos autos do inventário. Não existe renúncia verbal, tampouco renúncia presumida por silêncio.

Renúncia pura e simples: a parte volta para o monte

Na renúncia pura e simples (também chamada de abdicativa), o herdeiro sai da sucessão como se nunca tivesse sido chamado. A sua parte não vai para quem ele escolher: ela retorna ao monte partilhável e é redistribuída entre os demais herdeiros da mesma classe. Se ele era o único da classe, a herança passa para a classe seguinte na ordem de vocação hereditária.

Um ponto que costuma surpreender: os filhos de quem renuncia não representam o pai ou a mãe renunciante. Diferente do que ocorre na pré-morte, na renúncia os descendentes não sobem para ocupar aquele lugar, salvo se forem chamados por direito próprio.

Renúncia em favor de alguém é, na verdade, doação

Quando o herdeiro diz que renuncia "em favor do meu irmão" ou "em favor da minha mãe", juridicamente ele aceitou a herança e, em seguida, transferiu a sua parte. Isso é cessão de direitos hereditários ou doação, e o tratamento tributário muda: pode haver dois fatos geradores de ITCMD, um pela sucessão e outro pela transmissão gratuita subsequente.

Efeitos práticos que precisam ser avaliados antes

  • Impacto no ITCMD e possível dupla tributação.
  • Situação de credores: a renúncia feita para prejudicar credores pode ser impugnada.
  • Reflexos no regime de bens do herdeiro casado.
  • Impossibilidade de arrependimento — a renúncia é irretratável.

Como conduzo esse caminho

Antes de qualquer assinatura, avalio se o objetivo da família é reduzir carga tributária, concentrar um imóvel em uma pessoa ou simplificar o inventário. Muitas vezes o resultado desejado é melhor alcançado por cessão onerosa, doação com reserva de usufruto ou partilha desigual consensual — instrumentos que preservam a intenção real sem efeitos colaterais.

Decida com informação, não com pressa

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Próximo passo

Cada caso tem uma arquitetura própria.

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Anne Brito · Advocacia extrajudicial de famílias e sucessões · OAB/RJ · OAB/ES